Escolher arquitetura de dados pela tendência é um padrão fácil de reconhecer. A empresa decide migrar tudo para a arquitetura que está em alta e descobre, no meio do caminho, três coisas. Os relatórios regulatórios funcionavam bem onde estavam. Os cientistas de dados precisavam dos dados brutos que a migração deixou para trás. E o problema era, na verdade, um time central sobrecarregado, não o formato das tabelas.
A pergunta correta não é qual arquitetura é a mais recente, e sim quais requisitos os dados e seus consumidores impõem. Três deles explicam a maior parte das decisões:
- O tipo de dado: tabelas, JSON, logs, imagem, áudio, PDF.
- Quem consome: dashboard, analista, cientista de dados, modelo em produção, LLM.
- A escala: volume e frequência de chegada.
- A estrutura da organização: um time central de dados ou vários domínios com autonomia.
Aplicações de IA costumam tocar vários desses requisitos ao mesmo tempo, o que torna a escolha menos óbvia do que parece.
Três formas de guardar dado analítico
Um data warehouse atende ao requisito de dados estruturados consumidos por SQL e BI. Ele consolida dados de sistemas como vendas, financeiro, RH e CRM em um modelo único, com dados limpos e definições acordadas. Funciona com schema-on-write: o schema é definido antes da carga, e o que não se encaixa é transformado ou rejeitado. O caminho clássico é o ETL (Extract, Transform, Load), em que a transformação acontece antes de o dado chegar ao destino. O ganho é consistência para relatórios e decisões e o custo é a rigidez, em que mudar o schema exige retrabalho nos pipelines. Warehouses em cloud aceitam semiestruturado, como JSON, mas imagem, áudio e vídeo seguem fora do escopo.
Um data lake atende os requisitos de variedade e volume a custo baixo. Ele guarda o dado no formato original, em object storage (S3, ADLS, GCS) ou HDFS: JSON, Parquet, logs, vídeo, PDF. Funciona com schema-on-read: a estrutura é interpretada no momento da leitura. Por isso, o caminho costuma ser ELT (Extract, Load, Transform), com carga primeiro e transformação depois. Isso dá liberdade a quem explora o dado e aceita fontes que um warehouse não aceitaria. O risco é o data swamp: o lake acumula tudo, ninguém acha nada, e quem acha não confia na qualidade. Esse risco vem da falta de catálogo, dono e controle de qualidade, não da arquitetura em si.
Um data lakehouse atende ao requisito de ter garantias de warehouse sobre o storage barato e flexível do lake. A peça central são formatos de tabela abertos, como Delta Lake e Apache Iceberg, que adicionam uma camada de metadados sobre arquivos Parquet em object storage. Essa camada traz três recursos:
- Transações ACID: escritas atômicas, consistentes, isoladas e duráveis, que impedem um leitor de ver uma carga pela metade.
- Evolução de schema.
- Time travel: consulta da tabela como ela estava em uma versão ou data anterior.
A organização mais comum é a arquitetura medallion, em três camadas:
- Bronze: o dado bruto como chegou.
- Silver: o dado limpo e conformado.
- Gold: tabelas modeladas para o negócio.
O termo lakehouse ganhou força por volta de 2020, mas os formatos que o sustentam são anteriores. O caso da Netflix mostra como lake e lakehouse se sobrepõem na prática. A empresa mantém em S3 os dados de eventos de reprodução e navegação e os snapshots usados para gerar features do seu sistema de recomendação (Netflix, SysML 2018). Foi sobre esse mesmo storage que ela criou o Apache Iceberg, para contornar as limitações das tabelas Hive (The Register; Data Engineering Podcast).
O que cada carga de IA exige
Machine Learning supervisionado tradicional
Churn, credit scoring, forecast e detecção de fraude têm requisitos parecidos: dados tabulares, histórico confiável, rótulos derivados de eventos de negócio e joins entre entidades como cliente, contrato e transação. E é exatamente isso que um warehouse já organiza para BI. Por isso ele costuma ser a primeira parada: as tabelas estão limpas, conformadas e com significado acordado.
Os trade-offs aparecem quando o uso deixa de ser exploratório.
O primeiro é custo. Feature engineering pesado, com janelas e agregações sobre anos de transações, consome compute do warehouse. Esse compute é cobrado por consulta ou por crédito e compete com as cargas de BI.
O segundo é a correção point-in-time. No treino, cada exemplo precisa das features como estavam no momento em que a predição teria sido feita, não como estão hoje. Tabelas que sobrescrevem o estado atual produzem vazamento de dados (data leakage) silencioso: o modelo vai bem na validação e mal em produção.
O terceiro é o atrito de ferramenta. Cientistas de dados trabalham em Python, e extrair grandes volumes do warehouse para um notebook é lento e caro.
O lakehouse atende à mesma carga com algumas diferenças. As tabelas gold servem tanto ao dashboard quanto ao treino. Engines como Spark leem os mesmos arquivos sem exportação. E o time travel permite recriar o dataset exato de um treino anterior, desde que a política de retenção de versões cubra o período, já que rotinas de limpeza como VACUUM ou a expiração de snapshots apagam versões antigas. Feature store e ferramentas de MLOps, quando existem, vêm da plataforma (como Databricks) ou de ferramentas separadas, não do formato de tabela. O iFood usa Delta Lake sobre a plataforma Databricks, com dados organizados em camadas medallion. A mesma base alimenta dashboards de BI usados em toda a empresa e o trabalho dos cientistas de dados, que vai de simulações de logística ao treino de modelos sobre a jornada dos usuários no app (Databricks, 2022; Databricks, 2025).
O data lake sozinho também atende, mas a qualidade e a semântica ficam por conta de cada time, o que tende a gerar features duplicadas com definições diferentes.
Para analistas, o ponto que mais pesa é a consistência de definições. Se "cliente ativo" significa uma coisa no dashboard e outra no modelo de churn, a discussão sobre o resultado vira discussão sobre a métrica. Para engenheiros de ML, o que mais importa é point-in-time e reprodutibilidade.
Treino de deep learning e modelos com dados não estruturados
Aqui os requisitos mudam de natureza. Visão computacional, áudio e NLP exigem:
- volume grande de arquivos binários;
- throughput de leitura suficiente para manter as GPUs ocupadas;
- controle sobre qual versão do dataset e dos rótulos gerou cada modelo.
O warehouse não se enquadra nesse cenário porque não foi feito para armazenar imagem ou áudio. O data lake é o lugar mais natural, pois oferece object storage barato, aceita qualquer formato e escala sem planejamento de schema. Não é coincidência que deep learning e data lakes tenham ganhado escala na mesma época.
A escala varia muito conforme o objetivo. Pré-treino de LLM opera na ordem de trilhões de tokens, mas poucas organizações fazem isso. A maioria dos times faz fine-tuning ou treina modelos de visão e áudio menores, com datasets de gigabytes a poucos terabytes. Mesmo nessa faixa, alguns custos aparecem rápido:
- Arquivos pequenos. Milhões de JPEGs de poucos kilobytes geram sobrecarga de listagem e de requisições. Formatos em shards, como WebDataset, TFRecord ou Parquet com colunas binárias, reduzem esse custo.
- Localidade. Treinar em uma região ou cloud com o dado em outra gera custo de transferência (egress) e latência.
- I/O. Ler diretamente do object storage durante o treino pode se transformar num gargalo. Cache local e prefetch fazem diferença.
- Versionamento. Sem controle, ninguém consegue dizer com quais imagens e quais rótulos um modelo foi treinado.
O lakehouse entra como complemento, não como substituto. Os binários continuam como objetos no storage, mas os metadados vão para uma tabela Delta ou Iceberg, com ACID e time travel: caminho do arquivo, rótulo, split de treino e validação, origem, licença e versão. Isso dá auditoria e reprodutibilidade sem mover os binários.
Para engenheiros de ML, os requisitos dominantes são throughput e reprodutibilidade. Para engenheiros de dados, são catálogo e ciclo de vida: retenção, classes de storage e custo de manter versões antigas.
RAG e aplicações com LLM
RAG (retrieval-augmented generation) recupera trechos relevantes de uma base de documentos e os entrega ao LLM como contexto para a resposta. Os requisitos são:
- um corpus de documentos (PDFs, manuais, transcrições, tickets);
- um pipeline de extração de texto, divisão em trechos (chunking) e geração de embeddings;
- um índice vetorial para busca por similaridade;
- controle de acesso;
- atualidade dos dados.
Os documentos originais costumam viver no data lake. O lakehouse acrescenta governança ao pipeline, e a medallion se aplica bem:
- Bronze: o documento original.
- Silver: o texto extraído e limpo.
- Gold: os trechos com seus embeddings e metadados.
Com isso, cada trecho tem linhagem até a versão do documento de onde saiu.
Uma distinção precisa ficar clara: Delta Lake e Iceberg não fazem busca vetorial. O índice vetorial é recurso de plataforma, como o Vector Search do Databricks, que sincroniza com uma tabela Delta. Ou então é um banco vetorial separado. Em ambos os casos, o índice é uma cópia derivada do dado. O ganho do lakehouse não é evitar duplicação, e sim manter a origem e a governança em um só lugar. O lakehouse é uma base possível para RAG, não a única. Muitas arquiteturas usam banco vetorial dedicado com o lake como fonte.
O warehouse não guarda o corpus, mas tem papel em aplicações com LLM. Perguntas como "quanto vendemos no Sul no último trimestre" são respondidas com mais precisão por text-to-SQL sobre tabelas modeladas do que por busca vetorial em documentos. Alguns warehouses em cloud já oferecem funções vetoriais.
Os trade-offs dessa carga são menos visíveis do que os das outras:
- Permissões. Se um usuário não pode abrir um documento na fonte, também não pode receber um trecho dele na resposta do assistente. As regras de acesso precisam ser levadas até o índice, e esse costuma ser o ponto mais negligenciado do pipeline.
- Data freshness (atualidade dos dados). Um documento atualizado na fonte continua respondendo com o texto antigo até o pipeline rodar de novo.
- Reindexação. Trocar o modelo de embedding obriga a reprocessar o corpus inteiro, e o custo cresce com o tamanho dele.
Para engenheiros de IA, o foco tende a ser qualidade de recuperação. Já para os engenheiros de dados, o foco está em permissões, data freshness e linhagem, que são justamente o que decide se o sistema pode ir para produção.
Resumo por carga
| Carga | Warehouse | Data Lake | Lakehouse |
|---|---|---|---|
| ML supervisionado tradicional | Alta. Ressalva: custo de compute e correção point-in-time | Média. Qualidade e definições ficam por conta de cada time | Alta. Feature store depende da plataforma, não do formato |
| Deep learning e dado não estruturado | Baixa. Não armazena binários | Alta. Ressalva: arquivos pequenos, I/O e versionamento | Alta para metadados e versões. Binários seguem no object storage |
| RAG e aplicações com LLM | Média, como contexto estruturado via text-to-SQL. Não guarda o corpus | Média. Guarda o corpus, mas sem linhagem nem governança por padrão | Alta. Índice vetorial vem da plataforma ou de banco separado |
Nenhuma delas foi aposentada
Warehouses legados continuam no centro da operação de grandes empresas. No Bradesco, o warehouse Teradata segue em produção, agora em um ambiente híbrido entre on-premise e Azure (Teradata), enquanto a iniciativa de open finance roda sobre Delta Lake na plataforma Databricks (Databricks). O warehouse continua lá porque o requisito que atende continua existindo, não por inércia. O mesmo vale para os data lakes que ganharam uma camada de lakehouse: a Netflix não descartou o storage em S3 para criar o Iceberg, construiu sobre ele.
Por isso, a pergunta do título tem uma resposta menos direta do que parece. Não existe uma arquitetura que seja a melhor para aplicações de IA, porque "aplicação de IA" não é um requisito só. Um modelo de churn, um classificador de imagens e um assistente com RAG pedem coisas diferentes, e é comum que convivam na mesma empresa, às vezes no mesmo produto.
Na prática, três combinações aparecem com frequência:
- Warehouse e data lake lado a lado. O warehouse serve BI, relatórios regulatórios e o contexto estruturado para LLMs. O lake guarda logs, documentos e binários para ciência de dados e treino.
- Data lake com uma camada de lakehouse por cima. Quem tem um lake maduro não o descarta. Adiciona Delta ou Iceberg e converte tabela por tabela, com as duas formas coexistindo por meses ou anos. Os binários continuam como objetos, e os metadados ganham ACID, versionamento e linhagem.
- Lakehouse com um índice vetorial ao lado. As camadas medallion governam o pipeline de documentos, e a busca vetorial fica com a plataforma ou com um banco dedicado.
A pergunta que orienta a decisão, então, não é qual arquitetura escolher, e sim quais requisitos cada carga impõe e como combinar as arquiteturas que atendem a eles. Uma escolha feita assim continua fazendo sentido quando a próxima arquitetura em alta aparecer.





